Deboche ou protesto


O grafite encontrado em um muro de uma comunidade de Costa Barros, que retrata um rapaz armado, sob os dizeres “projeto primeiro emprego”, foi interpretado por policiais como uma afronta do crime organizado. A autoria do desenho, no entanto, segundo moradores, cabe a um jovem artista de rua sem qualquer tipo de ligação com a criminalidade.

O episódio expõe a visão minimalista das autoridades diante da falta de oportunidades dos jovens de comunidades carentes. Tal ilustração deve ser vista sob a ótica de um grito de socorro desses grupos. Uma denúncia sobre o fato de que o primeiro emprego, que tanto se ouve falar, só é encontrado por parte deles no ilusório mundo da criminalidade. Até porque, o trabalho informal e o emprego regular mal-remunerado, as alternativas que têm à disposição, se mostram pouco dignificantes e sem qualquer perspectiva ou atrativo.

Não se trata de apologia à vida do crime, mas justamente o contrário. A ilustração, principalmente na forma como foi concebida, através de uma arte com profunda identificação com a juventude, o grafite, é um protesto legítimo contra a idéia que o jovem de comunidade é um marginal em potencial sem talento. Um desabafo de alguém cansado de ser visto como mão-de-obra barata à espera de uma vaga no bizarro mercado de trabalho do crime, onde só se é despedido à bala.

Cabe ao estado e à sociedade interpretarmos protestos assim como um anseio do ser humano de dizer que não está satisfeito com o destino que lhe tem sido reservado. Ver manifestações como esta apenas sob a perspectiva do enfrentamento é uma forma tacanha de lidar com o problema e soa como repressão.

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