A Escolha de Sofia no PEU da Penha

Pessoal,

A votação de alterações urbanísticas no Plano de Estruturação Urbana do bairro da Penha trouxe uma escolha difícil, das mais difíceis que já tive que fazer na Câmara.

Desde 2010, a secretaria de urbanismo havia feito reuniões na Câmara – e a última delas foi no auditório há pouco mais de um ano – defendendo que houvesse uma alteração no gabarito (altura máxima de prédios da região) para possibilitar investimentos e revitalização do bairro. Segundo dados apresentados, inclusive, desde 1988 não houve empreendimentos no local. Construtoras preferem outros bairros com maior viabilidade economico-financeira.

O projeto ficou de certa forma parado na Câmara e voltou à discussão quando da retomada do poder público do Complexo do Alemão, e a prefeitura insistiu no mesmo argumento da necessidade de revitalização do bairro. O problema viria, contudo, depois.

Existe uma região entre as ruas Montevidéu e Quito onde era o antigo “Curtume Carioca” (mapa acima) – maior indústria de curtição de couro das Américas que funcionava desde 1920. No final dos anos 90, com a crise do couro por sintéticos e ainda por cima depois de cometer um crime ambiental de proporções históricas na Baía de Guanabara, despejando chumbo e fenol após um incêndio, a Curtume Carioca faliu. Desde lá, seu terreno, oposto à Igreja da Penha (mapa acima) está sem destino. Uma parte pequena das terras, na lateral, já havia sido vendida a uma Igreja Evangélica, e é aqui que começam os problemas.

Tendo essa Igreja como Grande Líder um famoso Pastor Evangélico da TV, que é hoje um dos Deputados Estaduais mais votados do Rio por seus fiéis, seu interesse era o de não permitir o aumento de gabarito (altura máxima), uma vez que queria comprar o restante do terreno da Curtume para fazer um mega complexo evangélico para contrapor à igreja da Penha. Seu chefe de gabinete, inclusive, esteve na Câmara durante toda a votação tentando cooptar votos contra o projeto do PEU da Penha.

Do outro lado, empreendedores, que planejam construir os primeiros prédios na área desde 1988, haviam se posicionado à prefeitura que seus empreendimentos só seriam viáveis com alteração do gabarito (altura máxima) para 10 andares (30 metros). O líder do governo, Adilson Pires, encaminhou assim para a aprovação, com essas emendas. Ficou claro que, se o aumento de gabarito não ocorresse, o terreno seria vendido à tal igreja.

Há que se notar que o PEU é para todo o bairro da Penha, e não somente este terreno. O interesse do projeto é revitalizar toda uma região quase parada no tempo. Quero aqui deixar claro que sou absolutamente a favor da liberdade religiosa, mas a cultura do bairro – mais que a religião – estava em jogo e risco de sofrer severas mudanças. O templo e mega complexo desejado pode ser construído em qualquer outra área. Ainda esclareço que minha decisão teria sido a mesma, fossem estas duas igrejas em papéis invertidos, provando aqui que não existe qualquer preconceito de minha parte. A preocupação é de revitalizar e não mudar o perfil cultural da região. Há ainda o compromisso dos empreendedores de fazer compensações ambientais, uma vez que até hoje a prefeitura ainda não recebeu os 450 mil reais de multa pelo crime ambiental da antiga Curtume.

A escolha difícil era entre favorecer o nascimento de um mega complexo evangélico (de uma igreja específica!), contribuindo para descaracterizar um bairro que é conhecido pela “Igreja da Penha” e favorecer novas construções na região – segundo a secretaria de urbanismo, nenhuma delas atrapalhará a visão da Igreja em altura. Quando vi meia dúzia de pessoas nas galerias pedindo “Não” ao projeto e pendurando 4 faixas de lona (daquelas impressas em gráfica profissional) e não de sarrafo, acompanhadas do chefe de gabinete do Pastor-Deputado, fiz a minha “escolha de Sofia”. Agora é acompanhar se realmente o projeto irá trazer modernidade a todo o bairro, com as devidas compensações ambientais e manutenção do ambiente cultural.

Abraços,
Paulo Messina

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6 pensamentos sobre “A Escolha de Sofia no PEU da Penha

  1. magaly g. bondim quinta-feira, 27 outubro 2011, 10:35 AM às 10:35 AM

    Lembro bem desse Cortume e dele resultaram grandes empreedimentos na área do couro:calçados,bolsas e outros artigos.Não há dúvida quanto á utilização dessa área,que seria a urbanização, preservando as condições ambientais já existentes:árvores etc oferecendo agradável lazer.,mas também dando á população local e porque não de outros bairros, um centro cultural com biblioteca,sala para palestras,exibções em vídeo,música de boa qualidade e outras atividades com o objetivo essencialmente cultural.È inadmissível,penso eu,ceder a essa exploração religiosa medindo forças para ver quem leva a melhor,como se religião fosse um comércio.Espero e outros eleitores com uma sensata escolha.

  2. Fernando C. quinta-feira, 27 outubro 2011, 8:24 PM às 8:24 PM

    Pobre morador da Penha! Entre a instalação de um megacomplexo evangélico e o apetite desenfreado da especulação imobiliária, que vai esconder da paisagem a igreja da Penha, com quem ficar? Talvez venha a ter saudade da fuligem, do fedor e das cinzas do Curtume, que lhe infernizava a vida, mas ao menos dava emprego pra muita gente na vizinhança.

  3. guilhereme domingo, 6 novembro 2011, 3:02 PM às 3:02 PM

    sou morador, e uma dificil escolha, mas quem mora na penha sabe do fechamento de comercio, devido a falta de empreendimento imobilario, ficar ilhado na penha tambem nao da!! veja o caso do shopping da penha que esta quase fechada dando por falta de consumidores, este emprendimento trara a penha o interesse de contrutoras por varios terrenos vazios ou abandonados por seus proprietarios, vida nova a penha assim como copacabana , leblon, barra!!! nao podemos parar no tempo

  4. Frederico Mendes pres. OAB/Leopoldina sábado, 12 novembro 2011, 2:40 PM às 2:40 PM

    A aprovação do PEU da Penha é fundamental para a recuperação econômica e social, não só da Penha como de toda a região da leopoldina, que não recebe investimentos privados a décadas, o que acarreta a estagnação da região. Parabéns pela sua escolha vereador Paulo Messina!

  5. Diogo sexta-feira, 10 fevereiro 2012, 11:29 PM às 11:29 PM

    Como se reestruturação urbana fosse sinônimo de aumento de gabarito! É óbvio que os empreendedores estão interessados muito mais na especulação imobiliária do que em promover qualquer tipo de melhorias para bairro. Se o desenvolvimento do comércio, ou de qualquer outro tipo de atividade econômica fosse sinônimo de benfeitorias para o bairro, Madureira seria o paraíso! Certamente haverá um crescimento populacional, aumento do número de veículos circulando pelas ruas, pessoas, enfim, tudo isso, se não for acompanhado de um planejamento eficaz irá transformar o bairro em um verdadeiro caos! Do ponto de vista cultural, tanto o megacomplexo religioso, quanto os novos empreendimentos irão descaracterizar a paisagem do bairro, não por dificultar a visão da igreja da Penha, mas por descaracterizar a arquitetura típica do subúrbio carioca (identidade!) que o bairro da Penha ainda guarda.

  6. Diogo sábado, 11 fevereiro 2012, 4:27 PM às 4:27 PM

    Bacana é voltar aqui e vê que meu comentário foi removido. incomodou? acho que sim…

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