Meia Entrada: Paradoxo da Cultura

Pessoal,

Uma discussão polêmica na Cultura está sendo reaberta: a meia entrada. Tanto a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, quanto o secretário municipal de Cultura, Emilio Kalil, propõem mudanças na lei que impõe o desconto de 50% para idosos e estudantes em cinemas, teatros, casas de show etc. Para ela, as regras deveriam ter limites, como por exemplo a quantidade de ingressos a meio valor em cada sessão. Para ele, o abatimento teria que ser subsidiado pelo poder público.

A verdade é que, se por um lado o poder público impõe que a iniciativa privada dê o desconto, fazendo caridade com chapéu alheio, o empresário de cultura soluciona a questão aumentando os ingressos. Fiz algumas entrevistas com donos de equipamentos culturais e a estatística é de 65% dos ingressos, ou seja, praticamente 2/3 do total são meia entrada. No final de tudo, quem paga a conta? Nós, que não usamos meia entrada.

 O resultado é claro nos números: Rio de Janeiro faz parte de um circuito cultural que tem muitas vezes os ingressos mais caros do mundo. Por exemplo, o show deste fim-de-semana do Bob Dylan na Barra vai ser mais que o dobro do cobrado na Europa, com o valor já convertido para nossa moeda!

O político que propõe a lei da meia entrada a cada vez mais público lucra de forma irresponsável seus votos. Aí vêm os espertos, que nem estudantes são, tiram suas carteirinhas e fazem a farra também. O empresário, que não vai quebrar por conta disso, aumenta os ingressos. E aí, repito, nós que compramos a ‘inteira’ pagamos a festa.

Então, vamos debater? O que pensam, meus caros leitores? (a) Fim da meia entrada; (b) sua limitação de ingressos por sessão; (c) liberação, com subsídio do poder público; (d) deixar como está; (e) outras opções?

Abraços,
Paulo Messina

Marcado:, ,

17 pensamentos sobre “Meia Entrada: Paradoxo da Cultura

  1. Frederico Cardoso quinta-feira, 12 abril 2012, 10:30 AM às 10:30 AM

    o direito à cultura é garantido pela constituição, mas só no texto e não na realidade.
    se as obras realizadas com dinheiro público voltassem para o público (afinal foram subsidiadas) seria parte da solução.
    se o poder público subsidiasse as meias entradas (ao meu ver, dever do Estado, pois está escrito na constituição), seria a outra parte da solução.
    As empresas de ônibus recolhem 0,01% de ISS (subsídio), enquanto as produtoras culturais com ou sem fins lucrativos recolhem 5% (alíquota cheia).
    baixar a alíquota do produtor cultural seria mais uma parte da solução do problema.
    A KW de luz de uma montadora de carros é mais barato que o de um cinema ou teatro.
    baixar o preço d KW de luz dos equipamentos culturais seria outra parte da solução do problema.

  2. Maria Alice da Costa quinta-feira, 12 abril 2012, 10:31 AM às 10:31 AM

    Acho que todos aqueles que possuem direitos à meia entrada tais como, professores da rede municipal, idosos e alunos devidamente matriculados não deveriam, de forma alguma, perder este direito, o que é mais do que justo. A saída, a me ver, deveria ser a fiscalização por parte das autoridades quanto ao uso indevido das carteiras por quem não é estudante. Para isso, existe a lei, ou seja, o Código Penal, o qual prevê a tipificação e a pena para esta fraude.
    Por favor, não cogite a possibilidade de cortar este benefício para os professores.
    Ps.: Neste final de semana, fui a um show e quando ia mostrar a carteira, o recepcionista disse que não precisava. Este tipo de atitude só contribui para o aumento deste tipo de ilícito.

  3. Marino Galvão Jr quinta-feira, 12 abril 2012, 10:46 AM às 10:46 AM

    Não é de hoje que a meia-entrada e taxas de conveniência para ingressos de espetáculos causam polêmica. Basta circular por sites especializados no mercado cultural que encontraremos várias opiniões sobre o assunto. Na maioria dos casos podemos resumir a três tipos de personagens:

    O primeiro é o detentor do direito adquirido. Falo daquele que por uma das legislações vigentes em todo o país pode usufruir o direito de pagar 50% menos que outros em eventos culturais. Não abre mão do direito e sob qualquer suspeita aciona o PROCON e o MP.

    O segundo é o artista ou produtor que defende o lado mercadológico da arte questionando as leis aprovadas de forma populista. Este muitas vezes repassa o custo do subsídio aumentando o valor da inteira fazendo com que na prática todos paguem mais.

    O terceiro personagem, geralmente mais esquecido, é aquele que não tem nenhum tipo de desconto e paga a conta de quem sempre paga menos. Este está refém do sistema, pois não tem lei nenhuma a seu favor e tão pouco pode aumentar ou reduzir o valor daquilo que vai pagar pela sua entrada.

    A verdade é que o setor cultural, e agora o esportivo com a polêmica da copa do mundo, são os únicos obrigados por lei a darem descontos. Estudante precisa de livros baratos, internet barata, ônibus barato e de cultura barata. Sobrou pra cultura. Ninguém liga, ou ligava pra ela. Aliás, “ninguém” é um outro personagem que nunca pensa de onde sai o dinheiro para subsidiar o milagre da meia-entrada.

    Como em qualquer isenção alguém tem que pagar a conta. Ou alguém acredita ainda que o idoso não paga passagem urbana? E o carteiro? Quem paga por isso? Nós pagamos. Todos nós somos os terceiros personagens esquecidos desta novela mexicana chamada meia-entrada e pagamos a conta pela irresponsabilidade dos legisladores brasileiros.

    A meia-entrada inviabiliza que o produtor cultural pratique uma política de preço e promoção, duas das variáveis mais importantes do marketing e que são necessárias para garantir o sucesso de um evento. Ao partir de um ingresso com um desconto pré-estabelecido em lei o produtor fica sem margem para segmentar o seu público por nichos diversos, por exemplo praticando valores menores do que 50% pra certas categorias que necessitam de acesso e valores entre 50% e 100% para outras categorias, convênios com entidades, universidades etc. Isso é fundamental para que o público seja mais heterogêneo e atenda a todas as classes sociais. Afinal um assalariado e um milionário tem o direito a gostarem do mesmo artista. Ou não?

    Ressarcir o valor da meia entrada como quer o secretário Emilio Kalil é demagogia. Não haverá orçamento para tanto, nem estrutura para controle disso. Sobretudo se pensarmos em todos municípios brasileiros. O modelo é genial pois seria um FPID – Financiamento Público Indireto que atende à Demanda. Mas aí está o vale-cultura, instrumento parecido e que ainda não saiu do papel.

    A proposta de Adriana Rattes, é de difícil controle. Será aquele caso em que o ingresso reduzido existe, mas desaparece em horas nos casos dos grandes eventos. Para os produtores pequenos não vai mudar nada. Vão preferir vender tudo por 50% que arriscar não ter público. E assim a meia vira inteira novamente.

    Defendo um modelo nacional, que limite a idade em 26 anos, como é na Europa, e com desconto legal máximo de 30%. Isso reduz drasticamente a base de usuários e manteria o valor médio de ingresso mais próximo da inteira. Outras reduções acontecerão por livre vontade do mercado e provavelmente influenciados pelo aumento no consumo cultural e a concorrência que teremos nos próximos anos. Surgirão assim espontaneamente cotas de ingressos com valores diferenciados, como já acontece em eventos divididos por setor. Hoje temos apenas uma redução, que é praticamente ampla e irrestrita. Isto não possibilita nem mesmo que o detentor do direito valorize o desconto que está tendo. Ora o que eu estou ganhando pagando aquilo que todo mundo paga?

    No caso de eventos subvencionados por lei de incentivo, o que deverá ser levado em consideração é o percentual patrocinado pelo poder público. Obviamento um projeto enquadrado no artigo 18 da Lei Rouanet com 100% de incentivo público terá que dar uma contra-partida maior à sociedade. Outro enquadrado no artigo 26 com menos incentivo fiscal e mais dependente do mercado cultural terá menos responsabilidades por exemplo com valores de ingresso e reduções. Isso deverá variar de estado pra estado e de município para município conforme suas legislações específicas.

    Caro Paulo Messina, se o Rio de Janeiro está disposto a alterar a lei e realmente fizer isso, dará o caminho para o mercado cultural de todo o país. Falo pela minha experiência de trabalho no Departamento de Comunicação e Marketing do Piccolo Teatro de Milão, e pelo MBA que acabo de concluir em Gestão do Espetáculo e da Indústria Cultura pela SDA Bocconi de Milão.

    • paulohpontes sexta-feira, 13 abril 2012, 7:56 AM às 7:56 AM

      Minha opinião é que a lei Rouanet terminou de destruir a indústria cinematográfica Brasileira.
      Para que vc precisa fazer um filme bom, que tenha apelo para uma grande bilheteria, se ele já sai pago da ilha e edição?

  4. Pedro Nin Ferreira quinta-feira, 12 abril 2012, 11:40 AM às 11:40 AM

    Cotas são difíceis de serem controladas e vão contra o direito universal da isonomia. Seguindo a filosofia da lei que é a de baratear ingressos para estudantes pois estes ainda não entraram no mercado de trabalho para gerarem renda própria, a solução é limitar o desconto a estudantes até uma idade limite não produtiva, por exemplo 25 anos. Desta forma, não ocorrerá o efeito “eu pago as meias-entradas” pois elas somente tenderão a ser majoritárias em eventos dirigidos para a faixa etária até 25 anos. Nos eventos dirigidos a um público mais velho a incidência de meia-entrada tenderá a ser residual e o preço cobrado pela inteira poderá ser um preço justo.

  5. maria Fernanda Vernes de andrade quinta-feira, 12 abril 2012, 12:08 PM às 12:08 PM

    Caro Messina
    enfim tomei posse para PEI (professor de educação Infantil), quem sabe vou ter direito a meia entradas nos espetáculos culturais , pois como AAc , não tive tal direito , e paguei uma entrada bem cara no show do Justin Bieber (presente de Dia da Criança para minha filha de11 anos ) .
    Não tire a meia entrada , só limite a quantidade de ingressos ,pois as vezes as pessoas compram para revender , o que não acho certo.

  6. mayrinck quinta-feira, 12 abril 2012, 1:52 PM às 1:52 PM

    Aumentar o valor do ingresso é, no mínimo, uma falta de respeito com os estudantes, pois não há como desvincular educação e cultura , além do mais, esses ingressos VENDIDOS com 50% de desconto, já estão com valor elevado , portanto não vejo isso como “caridade com chapéu alheio” e sim uma atitude para minimizar as dificuldades que a falta de cultura nos impõe. Está mais do que na hora dos empresários deixarem de pensar somente em seus bolsos e passar a pensar um pouco mais com a qualidade dessa cultura que estão promovendo.

  7. Claudia Barbosa quinta-feira, 12 abril 2012, 10:09 PM às 10:09 PM

    Acho muito legal esse direito a meia entrada para professores, mas muito injusto com o pessoal de apoio. Eu sou merendeira há 10 anos e nós não temos direito à cultura como os professores. Acho muito injusto isso.

  8. paulohpontes sexta-feira, 13 abril 2012, 7:52 AM às 7:52 AM

    Voto pela alternativa “a”, o fim da meia entrada por vários motivos:
    -Um privilégio só deve ser mantido caso não haja abusos. Temos décadas de abusos encima da meia entrada. Logo já perece ser extinto este privilégio.
    -Não existe isso do “governo prover acesso a cultura”. Cultura é todo o contexto que nos cerca, a única forma de alguém não ter acesso a cultura é mantendo a pessoa trancada em solitária permanente.
    -Como os ingressos mais caros são os de filmes 3D e a indústria cinematográfica brasileira não produz filmes 3D, o governo brasileiro está praticando um “subsídio” que em sua maior parte beneficia a indústria norte-americana
    -A meia entrada gera distorções que não permitem ou pelo menos dificultam uma real concorrência entre as salas de cinema.

    No entanto eu sei que é complicado tentar derrubar um privilégio populista destes, pois o cidadão médio tem carteirinha falsificada e/ou só vê o próprio umbigo, então talvez seja mais fácil passar uma lei alterando isso para um modelo em que todo espetáculo, cinema, etc tenha que ter uma certa porcentagem de suas vagas para os pagadores de meia entrada ou que a meia entrada seja válida somente para uma sessão específica por dia.

  9. maria euzete da costa pequeno sábado, 14 abril 2012, 1:45 PM às 1:45 PM

    Sou a favor da meia entrada porque todos teriam direito a ir ao teatro, cinema,concerto, ópera jogo de futebol mas gostaria que esse direito virasse lei e fose feita uma emenda assim: só teria direto os estudantes que não faltasem sa aulas e tirassem boas notas isso valeria também para os universitários faz isso meu vereador lute por mais essa calsa nobre como o sr. sempre fez pra cima deles meu vereador comnfio na sua competência! Dali seu Paulo Messina abraço e tenha uma boa tarde!

    • paulohpontes sexta-feira, 20 abril 2012, 9:04 AM às 9:04 AM

      Gostei da idéia de o benefício ser condicionado à nota. Cria uma meritocracia.
      Mas tem que ser por média e desvio padrão, pois uma nota 8 em desenho industrial não é o mesmo que uma nota 8 em engenharia elétrica!

  10. alston ferrari sábado, 14 abril 2012, 11:25 PM às 11:25 PM

    Sociedade capitalista versus subsídios,contrapartidas e quitais.A arte e seu fazer são caros.Como o criador e seus patrocinadores driblam a 1/2 entrada? aumentam o preço.Lembro de uma época em que o gov.Sérgio Cabral, então deputado,tentou instituir lei de desconto nos medicamentos, para os idosos, sem levar em consideração,os custos comerciais da medida, que elevaria em pouco tempo ao preço final do produto, pois não há mágica.Os custos são repassados para preços.Descontos são contabilizados como custo,e quem paga a diferença? O consumidor sempre. Os pacholas creêm em contos de carochinha,e nos demagogos de plantão, que legislam com o chapéu alheio. Imaginam a empresários granjeando a lucros nababescos,esquecendo os custos fixos e os variáveis. Deixemos que a fixação dos preços se faça pela procura, o desconto como tática de mercado e não obrigatoriedade.

  11. Alecsandro Amorim sábado, 14 abril 2012, 11:26 PM às 11:26 PM

    Caro Paulo Messina,
    Acredito que deveria ser direito de TODOS. Assim como nos países comunistas e/ou socialistas, a cultura aqui deveria ser a preço popular. Os mais idosos da antiga Uniao Soviética hoje reclamam da impossibilidade de ir aos teatros e shows que eram possíveis de se frequentar no regime comunista. Acho que a discussao nao deveria ser sobre a meia entrada continuar ou não. Acho que a discussao deveria ser sobre o direito de todos a uma entrada acessível. Terminar com as meia entradas talvez só ajudasse aos empresários, donos dos estabelecimentos. Acho que osvalores dependem também do bom senso de alguns artistas que, junto com suas equipes, oneram ainda mais o preço dos ingressos. Enfim, acho que, de fato, o problema maior é conscientização e partilha.
    Deixo, ainda, minhas considerações pelo Senhor e digo que admiro muito seu trabalho. Boa sorte!

    • paulohpontes sexta-feira, 20 abril 2012, 9:11 AM às 9:11 AM

      Não adianta achar que o empresário tem que ter “conscientização e partilha”, empresário tem que ter lucro. Quanto maior o trabalho e os riscos, maior o lucro. O governo brasileiro é bastante eficiente em complicar o trabalho com burocracia e aumentar os riscos com impostos e exigências bizarras.
      Quando om empresário faz um show ele sabe que tem que ter um faturamento de X para ter o lucro que ele quer. Se muita gente paga meia ele vai ter que aumentar o preço do ingresso para que o faturamento chegue a X.
      Para o governo diminuir o ingresso, tem que diminuir as distorçoes como a meia entrada, reduzir entraves burocráticos (alguém aí já tentou abrir uma empresa sem um despachante?) e diminuir a carga tributária.

  12. virginia segunda-feira, 16 abril 2012, 2:30 PM às 2:30 PM

    Meia entrada para todos e quaisquer eventos culturais.

  13. Marthinha sexta-feira, 20 abril 2012, 10:48 PM às 10:48 PM

    Sou Agente Auxiliar de Creche e gostaria de fazer jus também desse direito, sou contra o término e sim a favor que se estenda aos agentes, afinal trabalhamos com educação e precisamos de estar bem informados culturalmente.

  14. Denise Rodrigues - Merendeira terça-feira, 3 julho 2012, 11:28 AM às 11:28 AM

    Concordo com a Claudia Barbosa e a Marthinha. Eles dizem que todos nós (merendeiras, agentes, serventes, etc) “somos educadores, responsáveis também pela formação dos alunos”?
    Então; se dividimos o ônus nada mais justo que dividirmos o bônus.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: