Conflitos na Educação Infantil

Pessoal,

Já não é de hoje que se registram, em muitas unidades da Educação Infantil, conflitos entre os profissionais AEI, PEI e até mesmo com equipes de direção.

8854337582_916a30daf3_k

Reunião conjunta de AEIs e PEIs no ginásio do Clube Municipal, realizada em 2013

Em outubro de 2014, em um trecho de uma postagem, cheguei a publicar:

“(…) vejo várias mensagens incentivando GUERRA contra outras categorias como “Diretor tem 2ª matrícula de PEI e não está na sala, vamos denunciar”; “PEI não pode sair para planejar e nos deixar sozinhos”; “AEI pode ficar sozinho porque ganha GDAC”; entre outros. Não é declarando guerra aos outros que se alcançam os objetivos. Nunca foi. É se colocando para cima – e não os outros para baixo – que se chega onde é justo”.

“(…) Aqui cito Émile Durkheim. As relações de solidariedade orgânica. (…) O individualismo leva à anomia. Os grupos têm que entender que as relações de solidariedade é o que mantém a sociedade funcionando – ou no nosso caso, as unidades”.

“(…) A solução para os males – seja o AEI ficar sozinho ou o PEI não poder planejar – não é culpa de uma categoria ou da outra, e sim do quantitativo insuficiente de pessoal na Educação Infantil. (…) O certo é ambos brigarem JUNTOS por mais pessoal e estrutura PELAS CRIANÇAS.”

O ponto da discussão não deve ser quanto um ou outro ganha (não são todas as unidades, muito menos todos os profissionais que fazem essa discussão, mas sei que ela exite no campo), mas sim quanto a sua própria categoria deveria de forma justa ser reconhecida.

20150627_122014

Reunião com Diretores (junho de 2015) – Nota: Não só de Educação Infantil, mas também de unidades de EF.

É fato que a categoria de Agente Auxiliar de Creche (hoje, AEI), foi criada de forma errada pela Lei 3.985/2005 apenas com o nível fundamental, quando deveria ter sido de médio normal. Por conta desses erros, em 2011, foi a primeira categoria a nos procurar para resolver seu problema – ainda em meu primeiro ano como Presidente da Comissão de Educação (cargo que ocupo com orgulho até hoje), e por isso agradeço a confiança em nosso trabalho.

Esse erro de 2005 da escolaridade atingiu não somente os AEIs, mas por consequência toda a Educação Infantil, seus profissionais e as crianças, alunos das creches e pré-escolas. O porquê é muito simples: não há concursos para AEI e PEI há vários anos, e os bancos estão zerados. O último de AEI, de 2007/2008, venceu em 2012, e a SME foi impedida pelo Ministério Público de realizar um novo, pois novamente seria de nível fundamental – o que, repito, é ilegal.

De lá para cá, o número de profissionais na Educação Infantil vem minguando e os educadores em exercício ficando sobrecarregados.

Por um lado, o AEI – que não está nos quadros de magistério e não tem a regência – que não aceita ficar só em sala nem durante o ‘soninho’ para o PEI planejar, por um respaldo das leis federais (LDB e 10.172/2001), que impedem o exercício na Educação Infantil por quem não tiver o mínimo de médio normal e garantem o direito à criança de ter a presença de um professor durante as 10 horas que permanecem na creche.

14444451135_961434b68f_k

Reunião com PEIs, na Câmara Municipal, em junho de 2014

Por outro lado, o PEI tem também uma legislação federal que o respalda com direito a 1/3 da carga horária para planejamento. Se não pode sair da sala, não tem tempo para planejar.

E a direção, por sua vez, no meio dessa guerra, para garantir a política da SME seja executada.

De acordo o Referencial da Educação Infantil, documento do MEC elaborado em 1998, a partir de um amplo debate nacional é importante observar que:

“O ambiente de cooperação e respeito entre os profissionais e entre esses e as famílias favorece a busca de uma linha coerente de ação. Respeito às diferenças, explicitação de conflitos, cooperação, complementação, negociação e procura de soluções e acordos devem ser a base das relações entre os adultos.

Em se tratando de crianças tão pequenas, a atmosfera criada pelos adultos precisa ter um forte componente afetivo. As crianças só se desenvolverão bem, caso o clima institucional esteja em condições de proporcionar-lhes segurança, tranqüilidade e alegria. Adultos amigáveis, que escutam as necessidades das crianças e, com afeto, atendem a elas, constituem-se em um primeiro passo para criar um bom clima. (…)”

A solução para esses impasses é absurdamente simples, a ponto de não haver alternativa:

(a) Para o AEI, precisa ser alterada a Lei 3.985/2005 para escolaridade de médio normal, não só pela recomendação do Ministério Público (o inquérito está enorme desde 2008), mas principalmente pelas leis federais. Além disso, tem que haver novos concursos para repor o quantitativo ideal em sala, do real padrão MEC da resolução 20/2009;

(b) Para o PEI, a garantia do 1/3 de planejamento, o que só será possível com a migração total dos PEIs atuais que assim o desejam, ainda que isso não suprima a necessidade de se realizar um novo concurso (o que já foi publicado há pouco tempo);

(c) Ambos os cargos são educadores, até pelas atribuições claras nas suas leis, e precisam ser encarados como uma só equipe, na hora de executar as tarefas e também de planejar, por exemplo;

(d) As equipes de direção, aqui tanto da EI quanto do Ensino Fundamental, precisam ter o seu reconhecimento financeiro garantido (isso será objeto de um artigo em separado), de acordo com seu trabalho de 40 horas e não somente o cargo comissionado/FG, e acima disso têm que ter as condições necessárias para execução das políticas – leia-se: número de profissionais adequados, materiais e nada de creche inaugurando e tendo que ceder profissionais.

É um momento complicado para todo o país, que por mais saudável que seja a economia do município, é claro que sofre reflexos da gravíssima crise nacional e do Estado do Rio de Janeiro.

Estamos por aqui negociando e buscando alternativas de forma incansável. Mas precisava escrever a vocês agora porque vejo um clima piorando e que pode ser prejudicial não só a vocês profissionais, como também para as próprias crianças. Vamos buscar juntos as melhores relações de solidariedade nas unidades.

Por aqui, nosso dever de casa, estamos correndo muito atrás nas negociações, e garanto: vamos todos juntos chegar lá.

Abraços,
Paulo Messina

14 pensamentos sobre “Conflitos na Educação Infantil

  1. Ilda Pêsames quarta-feira, 8 julho 2015, 10:37 PM às 10:37 PM

    As diferentes categorias que atuam no chão da escola, devem se unir, somar esforços para alcançar as melhorias pretendidas.

    Enviado do meu iPhone

    >

  2. Catia Maria Cavalcanti Lemos quarta-feira, 8 julho 2015, 10:37 PM às 10:37 PM

    Messina, confio em você e no seu empenho. O que não aceito é a Educação ser tratada com descaso pela Prefeitura do Rio. Chegamos ao segundo semestre e até presente data nem relação das unidades beneficiadas com o 14 salário foram mencionadas. O nosso direito pessoal Lei 5620/20 desde fev. De 2014 ainda não foi nos concedido aumento. Porque tanta injustiça com nossa categoria e com a Educação em geral. É uma lástima o que ocorre dentrodas unidades, vvários profissionais trabalhando sobrecarregados,desmotivados e até mesmo humilhados. E quem perde com isso? As crianças, porque nós não temos condições de fazer um trabalho de qualidade. Precisamos de ATITUDE!!!!

  3. Bete Costa quarta-feira, 8 julho 2015, 11:38 PM às 11:38 PM

    A publicação desta matéria é de muita sensatez. Talvez o que falte, seria um melhor olhar pela SME, e realmente a vontade de transformar a educação municipal.

  4. artrachell quinta-feira, 9 julho 2015, 8:12 AM às 8:12 AM

    Messina, a bola de neve ladeira abaixo só faz crescer. Nossos gestores sabem muito bem o problema que construíram, ponto a ponto com a Educação Infantil. Não comecei hoje no magistério, gostaria imensamente de poder ter parado quando me aposentei, mas preferi fazer um outro concurso e continuar no magistério. Para meu espanto, encontrei este quadro deplorável, este clima de trabalho resvalando ao assédio moral, muitas humilhações, coisas que jamais vivenciei no magistério. Como sou uma pessoa de luta e nunca me acomodei, estou indo em frente. Gostaria mesmo que o prefeito Eduardo Paes fosse esclarecido sobre toda esta conjuntura. Percebo que os senhores gestores, se borram de medo de mostrar o quadro, apontar os erros. Sinto que quando ficam cara a cara com o prefeito vão lá para fazer cócegas em seus ouvidos, bajular. Distorcem e mascaram a realidade. Não acredito que um político como Eduardo Paes que pretende fazer um sucessor continue a levar esta estrutura da Educação Infantil desgaste. Desculpe-me, vejo que vc. tem trabalhado duro e leva seu trabalho a sério, mas será mesmo que vão chamar todos PEIS? A cada lista vemos pessoas excluídas, critérios e mais critérios. O PEI 40h migrado sendo pressionado a pegar uma carga horária extra e já ficando numa situação diferenciado dos que entrarão por concurso. Desculpe-me só vejo a bola de neve do clima péssimo de trabalho crescer. Na minha creche conseguimos às duras penas melhorar nosso relacionamento, mas é só entrar nas redes sociais para verificarmos o clima de ódio instalado. Turmas abarrotadas de crianças no Mat.II e ninguém fala mais nada que os profissionais estão trabalhando praticamente sozinhos na maior parte do tempo, quando nossas crianças deveriam estar sendo assistidas o tempo todo por dois profissionais. Eu tenho minhas dúvidas que alguém se preocupe com qualidade de atendimento e SEGURANÇA dos carioquinhas(como dizia a Costin) Nosso dia a dia de trabalho tenso. Obrigada pela atenção.

  5. Elizabeth Teles quinta-feira, 9 julho 2015, 10:36 AM às 10:36 AM

    Sou PEI! Estou há mais de três anos em regência. Trabalhei em creche apenas 1 ano fazendo dupla e fiquei horrorizada com o clima, já fui recebida com hostilidade por parte das AEI (até hoje não sei porque), muita fofoca e intriga entre elas mesmas, para falar a verdade nem a direção suportava o clima. . Amo Educação Infantil, mas espero não ter de voltar mais para a creche onde o clima é muito ruim. sempre trabalhei em escolas onde as pessoas trocam e se ajudam, é maravilhoso e gratificante esse clima, fiz amigos em todos os lugares que passei.

  6. TELMA A. L. COSTA quinta-feira, 9 julho 2015, 10:44 AM às 10:44 AM

    Desejo migrar para 40h e não fui chamada acredito que por alguns dias de greve. Fiz a greve parcial pelos motivos elencados neste blog. PEI Matrícula 2686731.

  7. Adriana quinta-feira, 9 julho 2015, 8:41 PM às 8:41 PM

    Fico muito triste com esse problema que está acontecendo nas creches. Nunca vi problema nenhum em as professoras planejarem, já que em sala tinham pelo menos duas AAI. Vejo amigas dizendo que são agredidas verbalmente e essas preferem ir para colégio regular, só para não ter que se indispor. Me tire uma dúvida, caso seja possível. As AAI que são formadas no magistério ou em pedagogia podem ficar em sala sem Pei? Esta correto na falta do Pei por Bim, a turma ser dividida?

  8. José Omar Duarte Ventura sexta-feira, 10 julho 2015, 2:17 PM às 2:17 PM

    Esperança e muito trabalho!

  9. José Omar Duarte Ventura sexta-feira, 10 julho 2015, 2:19 PM às 2:19 PM

    Esperança e muito trabalho.

  10. gilda santos de oliveira sábado, 11 julho 2015, 8:40 AM às 8:40 AM

    Messina foi muito bom você colocar essa materia que é um resumo de tudo que aconteu desde 2005. Mais veja só nada mudou, os conflitos continuam até hoje por inclivel que pareça. Todas as queixas seja de PEI, Direção e AEI . E agora para piorar a direção só faz reunião com as PEIs, informando-
    as sobre qualquer assunto e as AEIs fica
    m de fora. Mais na falta das PEIs quem segura a turma somos nós as excluidas. Mais vamos ver a onde vamos parar espero que todas juntas

  11. Marli Ramos Ferreira terça-feira, 14 julho 2015, 11:09 PM às 11:09 PM

    Fiz a inscrição para 40h, sou PII,entrei em 95, sempre fiz dupla.Participlei parcialmente da última greve.Gastaria de saber o motivo pelo qual não fui chamada e se ainda tenho chances?

  12. sandra sábado, 18 julho 2015, 2:31 PM às 2:31 PM

    Antes de qq. coisa precisamos ter dignidade (condições de trabalho). As conquistas partem desta base. Utopia pensar que existe trabalho em equipe dentro do espaço de educação infantil, por mais que os PEIS tentem, sejam diplomáticos, promovam bem estar e etc. Principalmente, os AAC mais antigos, possuem ideia fixa de conquistar dentro destes espaços, o que ainda, não conseguiram na justiça. Os direitos do PROFESSOR, e são capazes de qq. coisa. Tentam transformar os PEIS em seus auxiliares. Usam muito o bordão “aceita que dói menos”. AAC sabem de suas atribuições, entretanto não cumprem, tentam inverter os papéis na sala de aula.
    Não se faz ideia do massacre que os PEIS vivem em sala. É um grupo muito organizado (AAC) onde as ações são planejadas, sabotam o trabalho do professor constantemente, se consideram vitoriosos quando um professor novato desiste, que é o que acontece.
    Os direitos não conquistados na justiça, praticam em sala. Como o professor tem que conviver com estes profissionais, acabam se submetendo, perdendo a sua essência, a liberdade, o direito de planejar, pensar, criar. E o pior tendo reflexos na saúde, pois esta realidade é desconhecida por quem está entrando na EI.
    De fato esta é uma das etapas que mais exige do profissional , pois não se trabalha com o óbvio, busca-se o concreto para trabalhar qq. conceito, facilita-se a compreensão dos pequeninos. Enquanto o professor não tiver seus direitos garantidos não só na lei, como na sua prática diária, o caos continua.

  13. sandra sábado, 18 julho 2015, 2:45 PM às 2:45 PM

    assédio moral, muitas humilhações, coisas que jamais vivenciei no magistério.

  14. Celia Regina Souza Viana terça-feira, 21 julho 2015, 4:43 PM às 4:43 PM

    O convívio do saber contornar as situações …
    Do dia após dia . As conquistas vem daí .
    Sofri algumas coisinhas .mas fui “VITORIOSA ”
    O “AMADURECIMENTO PROFISSIONAL”
    Vai nos ensinando o convívio no ambiente de trabalho .
    Não entender muita coisa …
    Cantava sempre : É PRECISO SABER VIVER …”

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: